Paranóia

(como meu primeiro post nesse blog, e sem ter o que falar, resolvi pegar um texto que escrevi para o meu antigo site do geocities)

Já há alguns dias ele vinha tendo a sensação de estar sendo seguido. Começou com a vaga impressão de ter visto um vulto, numa noite clara em que resolvera passear a pé pelo bairro. Não deu muita atenção ao fato naquele dia – atribuiu-o à paranóia dos nossos tempos, em que o medo da criminalidade é estimulado diariamente pela imprensa.

Numa outra ocasião, quando voltava da padaria, pela manhã, teve a nítida sensação de ver um homem se escondendo no exato momento que olhava para trás. Começou a ficar preocupado – afinal, é tanta notícia de violência banal que se vê por aí… Fatos semelhantes foram se sucedendo, e o pânico foi tomando conta do seu dia-a-dia. Começou a pensar em reduzir o tempo de suas caminhadas, sair cada vez menos de casa, reforçar as fechaduras.

Chegou um momento em que qualquer ruído lhe tirava o sono, durante a noite. Um carro que passasse mais devagar em frente à sua residência e lá estava ele, olhando furtivamente por uma fresta da janela, com as luzes apagadas. Se, de madrugada, passasse alguém conversando alto, acreditava que era uma quadrilha inteira prestes a invadir sua casa.

O pior é que continuava tendo motivos para acreditar que alguém lhe seguia. O vulto começava a adquirir forma, cor e estatura, embora nunca o visse claramente. Chegou a acreditar que estava ficando louco.

Uma noite, num dos raros momentos em que se entregava ao sono, foi despertado por um barulho ensurdecedor no quintal, mais exatamente no lugar onde guardava suas tralhas. São eles, pensou. Seguiram-me tempo suficiente para conhecer meus hábitos, saber que moro sozinho, que sou aposentado, conhecer o que tenho de valor. Agora vêm à minha casa para levar meus pertences e me barbarizar! Pensou em ligar para a polícia, mas desistiu. Não adiantaria. Antes que conseguisse completar a ligação, com certeza já estaria morto.

Por fim, tomado de súbita e insana coragem, decidiu: enfrentaria os assassinos! Fossem quantos fossem, tivessem as armas que tivessem, ele não teria mais medo. Não agora. Que morresse, e que fosse uma morte dolorosa, mas o medo teria fim. Não mais viveria acuado, apavorado, muito menos nos seus últimos instantes de vida. Com essa determinação, levantou-se de um salto e dirigiu-se à porta da sala.

Chegando ao quintal, pôde ver o vulto já familiar saltando o muro, em fuga. Não viu mais ninguém. Ensandecido, não pensou duas vezes: saiu em perseguição ao seu assassino pelas ruas desertas. Correu como havia tempo não corria, a ponto de se admirar do seu vigor físico, sempre sem perder de vista o seu algoz. Aos poucos a distância entre eles foi diminuindo, até que, totalmente sem fôlego, o fugitivo encostou-se em um muro, abatido.

O perseguidor, ao ver que sua presa estava tão perto, já não tinha mais tanta coragem, e foi se aproximando cautelosamente. Arriscou começar um interrogatório:

– O que buscava na minha casa, safado! – tentou impor respeito pela voz, mas esta lhe saiu trêmula.

– Não me machuque, por favor. Só estava cumprindo meu dever – disse o homem, e agora dava para ver nitidamente suas feições. Era um senhor de meia idade, calvo, com aparência sofrida. Definitivamente não tinha cara de assassino, parecia mais um velho funcionário público, desses que ficam arrastando os pés atrás de um balcão poeirento, ou um dono de banca de jornal, daquelas que existem há décadas na mesma esquina.

– E o seu dever é assaltar casas de aposentados? Agora a coragem já havia voltado por completo, mas a raiva se esmaecia. O homem inspirava comiseração.

– Fui incumbido de espionar o senhor. Estava justamente tentando fotografar o interior da sua casa quando me enrosquei em umas caixas velhas e caí, arrastando tudo. Foi isso que me denunciou.

– Espionar-me?! Agora que ele reparava na máquina fotográfica que o homem trazia. Mas quem teria interesse nisso?!

– O senhor é suspeito de estar envolvido com grupos subversivos. Minha obrigação é mantê-lo sob constante vigilância.

Subversivo?! A única atividade que já tivera, que poderia ser classificada como subversiva, foi ter participado de algumas reuniões do sindicato, há mais de trinta anos.

– E desde quando você está me seguindo?

– Desde 1968. Um dia eu recebi a ordem juntamente com os seus dados. Onde deveria me alojar, a que coisas deveria me atentar. Tudo foi preparado com antecedência. Depois disso, nunca mais me contactaram. Me virei esse tempo todo com meus próprios meios, mas não abandonei minha missão. Tenho seguido seus passos desde então. Acompanhei praticamente sua vida inteira, cada mulher com quem saía, cada amigo que recebia em casa para uma cerveja, cada novo emprego, nova residência. Todas as festas que freqüentou. São pilhas e pilhas de relatórios que redigi esses anos todos e que nunca vieram buscar.

– E por que nunca me dei conta da sua presença?- perguntou, incrédulo.

– Sou um profissional. Sempre consegui fazer as coisas sem despertar a atenção. Acontece que a gente vai ficando velho, os reflexos não são mais os mesmos, os músculos já não respondem mais com a mesma presteza, e acabou que estamos aqui.

Acreditava ou não naquela história? Agora que havia ouvido tudo isso, começava a achar que conhecia o homem de algum lugar, mesmo. Quem sabe não o vira por várias vezes, de relance? Uma trombada em uma festa, um esbarrão no metrô, um entreolhar rápido na fila do cinema. Já estava acreditando ter visto aquele homem diversas vezes durante sua vida. Mas a história era por demais absurda.

– Seja como for, acabou. Hoje sou um professor aposentado, nunca cheguei a ter qualquer relação com nenhuma organização “subversiva”, como você mesmo deve ter constatado, se é mesmo um profissional.Ademais, o governo que o contratou já não existe há anos. Sua carreira de espião acabou. Se eu lhe pegar novamente nas imediações, não garanto por sua integridade física.

– Por favor, não! Tudo o que sei fazer é espionar. Aliás, tudo o que sei fazer é espionar o senhor. Pode fazer qualquer coisa comigo, menos me obrigar a interromper meu trabalho, que é a única coisa que me mantém vivo!

*****************

Ao entrar na padaria, deu uma olhada involuntária para trás. Ainda foi possível ver o vulto se escondendo. Preciso ficar mais atento, pensou, ou vou acabar criando uma situação constrangedora. Comprou o pão de todo dia e saiu, tomando cuidado desta vez de não olhar para trás sem antes dar tempo ao seu espião de se esconder.

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3 Respostas to “Paranóia”

  1. evaldolima Says:

    Muito boa sua historia, verdadeiramente paranóica!!!

    Parabéns.

    Evaldo Lima.

  2. Realmente é acefalo.
    😉
    Academia Brasileira de Letras….

  3. HAJA PARANÓIA!

    PARABÉNS PELO BLOG

    NANDO
    http://estrondo.wordpress.com/

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